Uma Morte Súbita - Alberto Gomes, Manuel Alberto Vieira, Marta Fernandes, J.K. Rowling Tudo começa com a morte súbita do vogal Barry Fairbrother da Assembleia da pequena cidade de Pagford. Ninguém estava à espera que isto acontecesse, muito menos nas circunstâncias em que esta morte se deu. A comunidade desta cidade inglesa fica abalada, pelas melhores e piores razões. Uma morte assim faz pensar na vida, nos tempos que achamos que temos pela frente e que nos são retirados de um momento para o outro. Mas por outro lado, uma vaga súbita na Assembleia é um palco e uma oportunidade perfeita para alguns membros desta comunidade e assim a cidade de Pagford vê-se envolvida numa luta de vontades que se revela muito mais do que apenas o preencher de uma vaga da Assembleia. Já todos conhecemos este nome da literatura inglesa contemporânea e todos sabemos o quanto este livro deu que falar na esfera literária. É um nome que dispensa apresentações e foi com um entusiasmo febril que os fãs da autora receberam este seu novo lançamento. Já muito se escreveu sobre esta obra. Há quem diga mal e há quem diga maravilhas. Estes livros que rapidamente se tornam um fenómeno são sempre assim, não dá de maneira nenhuma para agradar a gregos e a troianos. Na altura em que o livro saiu e era uma novidade fresquinha, vi muitas opiniões que se referiam ao facto deste regresso de Rowling ter sido uma desilusão. Não querendo contrariar a opinião pessoal de ninguém, nem os seus gostos, tenho que admitir que a desilusão deve ter sido por razões que não se prendem com o livro em si. Dá-me a parecer que alguns leitores não se conseguem dissociar do nome que Rowling criou para si como criadora de Harry Potter. E talvez por isso não olhem para este livro como ele merece ser olhado. Para mim, um grande escritor é aquele que (além de outros factores) consegue variar o seu estilo de escrita e é aquele que se move com conforto em várias áreas da literatura. O que interessa escrever 7 grandes livros de fantasia juvenil se só soubermos escrever sobre isso a vida inteira? O sucesso já foi atingido, é preciso é talento para manter esse mesmo sucesso. Foi por isso que abri este livro a pensar que isto seria uma autora que estaria a experimentar pela primeira vez. Não sabia ao que ia e apesar de estar extremamente curiosa, não construí nenhum tipo de expectativas para esta leitura. Não podemos pôr um autor num altar e depois trucidá-lo quando ele tenta criar algo diferente, apenas porque estamos habituados a vê-lo num certo registo. Uma Morte Súbita tem um início algo... estranho, diria. A primeira abordagem ao livro dá a parecer que será um livro de difícil leitura, pesado, até um pouco maçante. As primeiras 50 páginas deixaram-me realmente um pouco hesitante na leitura. Temos muitas personagens para conhecer e a autora está a apresentar-nos um mundo que nos é desconhecido, mas ao mesmo tempo familiar. Pensei inclusive que não estava a perceber o que é que a autora queria atingir com aquele início - seria isto um thriller ou apenas um conjunto de circunstâncias estranhas com muita asneira à mistura? Mal passou esse período de adaptação, comecei a entranhar-me nesta pequena comunidade de Pagford e comecei a interessar-me realmente nas pessoas que a autora nos estava a tentar dar a conhecer de uma maneira muito particular e muito intimista. Já tinha investido algo de pessoal na leitura, apenas porque senti uma ligação àquele universo fechado que é uma pequena cidade. O que a autora fez nesta obra foi pegar numa comunidade inglesa e descrever na perfeição uma micro sociedade incrivelmente realista. Entramos de rompante na vida destes personagens e deixamo-nos arrastar para o seu dia-a-dia que é feito de pequenos desafios. A autora poderia estar a descrever a vida de qualquer um dos habitantes deste planeta. Esta micro sociedade que ela criou tem tudo - até as discrepâncias entre ricos e pobres. Está cá tudo, inclusive descriminação racial e económica. Fico sempre admirada quando os autores conseguem capturar na perfeição esta que é a nossa dimensão humana. Todos os nossos defeitos, tudo aquilo que nos move. Este livro captura de uma forma incrivelmente certeira tudo aquilo que nos caracteriza como humanos, seja isso o bom ou o mau que vive dentro de todos nós. Mais incrível que tudo é apercebermo-nos de como um acontecimento quase "casual" (afinal morrem pessoas todos os dias) cria este rol de acontecimentos verdadeiramente estonteante. Para mim este é um retrato social muito bem construído e a forma como a autora escolher expor este cenário por vezes degradante, foi muito inteligente. Também tenho noção que não será um livro de que toda a gente gostará, mas para mim, foi um livro que me fez parar para pensar nisto de ser humano. E se há livros que me ficam na memória, são mesmo aqueles que me fazem parar para pensar. É um livro que para mim, vale verdadeiramente a pena ler. aqui