A Casa dos Espíritos - Isabel Allende, Carlos Martins Pereira Lembro-me vagamente da minha opinião quando acabei de ler este livro pela primeira vez. Sei de certeza que gostei. E apesar de ter achado que os pormenores não iriam ser lembrados, alguns até foram e à medida que fui avançando nas páginas fui dando por mim a mentalizar o que vinha a seguir.Esta segunda leitura, foi contudo vantajosa porque com o passar dos anos também temos tendência para ver as coisas sobre outro prisma e acredito que foi isso que aconteceu com este livro.É um livro que nos traz a crua realidade de uma família que vive num país que está a passar por uma fase de instabilidade política. Não é a primeira que leio um livro com uma forte componente política, mas a autora a meu ver, conseguiu torná-lo um assunto importante, apesar das desgraças que normalmente acontecem nestes casos. E conseguiu também com sucesso juntar a política (não fosse Esteban Trueba, ele próprio um pilar da sociedade e da politica do país dele) à dinâmica familiar que se verifica em todo o livro.Apesar de a autora fazer muitas descrições não são descrições maçudas. Aliás, trazem-nos para uma olhar mais íntimo sobre este família que tem as suas particularidades.O livro para mim, começa mesmo a sério quando Clara casa com Esteban Trueba e é aí que conhecemos as personalidades distintas de cada elemento deste casal.Esteban encarna a personagem dominadora. Marido, pai, dono de terras, tem todo o direito de opinar sobre qualquer assunto que lhe caia nas mãos, mesmo que não consiga lidar com ele da melhor maneira.Homem viril, com o maior desejo de ter um filho varão (legítimo) vê as primeiras tentativas falharem: Nasce Bianca.E é a partir desse momento no livro que este começa a ter sentimento verdadeiro. Aqui vale a pena alongarmo-nos nas palavras da autora. E quando Bianca se relaciona com Pedro Tercero Garcia, bem...só posso dizer que adoro livros com um bom amor de juventude, e muito mais se este for um amor "desencontrado". Os irmãos Nicolau e Jaime, bem eu gosto muito deles, têm a sua parte na história, mas mereciam mais protagonismo. Tem partes muito emotivas com o irmão Jaime que levam-nos a sofrer com ele. Estes irmãos são espectaculares. Conseguimos mesmo simpatizar com a situação de Jaime – que vive um amor que não é correspondido e só tem a sua oportunidade senão demasiado tarde. Ele é a minha personagem favorita neste livro. E já desde o início que me irritou a indiferença da Clara para cuidar dos seus próprios filhos. Se calhar, sendo habitual na época, ninguém acharia estranho. Mas em qualquer época que seja, uma mãe é sempre uma mãe e tenho pena que esta relação já de si especial não tenha sido mais íntima. E deixar os filhos ao cuidado das criadas, simplesmente, irrita-me um bocado.Já a Ama - eu sempre gostei dela - excepto quando ela não deixa a Blanca dar-se com o charmoso Pedro Tercero Garcia. Como é que ela não pode ver que eles ficam tão bem juntos? Fiquei triste.E quando Clara morre, bem tudo se torna uma confusão. Toda aquela instabilidade política rebenta e é tudo a acontecer ao mesmo tempo. No entanto, gostei da reacção de Esteban Trueba aquando o falecimento da sua mulher. Acho que pela primeira vez no livro, vi-o como um homem com sentimentos e que era dedicado à sua mulher apesar de não o saber mostrar da melhor maneira. Foi um final um pouco triste, mas acho que foi bastante adequado.