Sangue Quente - Isaac Marion Por entre os destroços de uma antiga cidade, vagueia um grupo de zombies que pretende alimentar-se dos poucos humanos vivos que por ali ainda vivem. Esta é uma cidade fantasma, completamente destruída, cinzenta e sem vida, tal como os zombies que se vão arrastando a gemer, desesperados por comida. No meio desse grupo, no entanto, encontra-se um zombie diferente de todos os outros e muito especial dentro da sua espécie. Estes seres não retiveram qualquer lembrança da sua vida anterior, nem o seu nome e não conseguem falar, a não ser proferir umas sílabas muito arrastadas, sem qualquer sentido. R (a única letra que se lembra do seu nome), um rapaz zombie, é diferente, pois na sua mente, os pensamentos não podiam ser mais claros nem fluentes. Além disso, consegue falar melhor do que todos os outros zombies. Mas o que torna R um zombie completamente diferente de todos os outros dentro da sua espécie é o facto de ele questionar não só a sua existência, mas também a dos vivos. O que reservará o futuro tanto para os mortos como para os vivos? R tem uma mente cheia de sonhos e questões para serem respondidas e mal sabe que a sua própria existência está prestes a mudar, quando ele e um pequeno grupo de zombies se dirige à cidade para se alimentarem. Para os zombies, o mais importante na alimentação, são os cérebros dos vivos. Isto porque além de serem a parte mais saborosa, é a parte mais importante da nossa anatomia. Não só retém recordações, mas também sentimentos, como o amor. Quando R acaba de se alimentar do cérebro de um jovem chamado Perry, começa a experienciar as recordações do mesmo. Mas dentro destas recordações, está uma jovem por quem Perry está apaixonado. Ela chama-se Julie e R, decide salvá-la e instalá-la dentro da sociedade dos zombies. Esta integração trará muitas mudanças a este mundo... Os zombies, são desde sempre uma temática de horror muito apreciada pelo mundo fora. De facto, estes seres que se encontram apenas meio-vivos são uma inspiração constante para o mundo artístico, seja dos livros, seja dos filmes, seja das séries. Mas como em tudo na vida, existem ciclos e fases. Neste caso, o mundo da literatura também se baseia muito em modas e ondas. Se há uns anos atrás, os zombies estavam na berra e só se viam filmes por aí com esta temática, depressa deixámos de ver esse fenómeno espalhado por todo o lado. Mas agora, os zombies voltaram à carga. Não só nas séries, mas também nos livros. E é assim que o jovem autor Isaac Marion nos apresenta este Sangue Quente, uma aposta da editora Contraponto que promete deixar-nos a reflectir sobre a condição humana. E não só.Tenho que confessar que apesar de gostar de experimentar todos os tipos de literatura e ter uma mente aberta, os zombies são uma temática que não me fascinam sobremaneira. No entanto, após ter lido a sinopse desta obra, achei que valia a pena arriscar. E tenho que admitir, que apesar do livro não se ter revelado uma leitura fantástica e inesquecível, também acabou por me surpreender. Para começar, tenho que dar os parabéns ao autor pela ideia tão original que teve. Hoje em dia, parece que é muito difícil arranjar algum novo conceito que ainda não tenha sido trabalhado. O mundo criativo não é tão fácil quanto parece e por isso mesmo é muito gratificante ler uma coisa nova, com originalidade. Esta leitura é no geral, muito criativa e original e isso é um grande ponto positivo, logo à partida. O segundo ponto positivo, é a maneira como o autor nos apresenta esta história. Gostei bastante da sua escrita e ainda mais, por o autor ter escolhido relatar esta história através dos olhos de R. Não só porque podemos conhecer esta personagem como mais ninguém conhece - dá a sensação que estamos dentro da sua cabeça e pensamentos - mas também porque permite que o personagem principal de aproxime mais do leitor e que crie assim um relato mais intimista. Acho importante que o autor se dê ao trabalho de aproximar o seu protagonista do público. Contudo, após estes pontos positivos tenho que confessar, que mesmo não sabendo de que forma é que o autor ia explorar o seu enredo, esperava outra coisa. Conforme fui avançando na leitura, dei por mim a pensar que a história ficaria melhor se o autor tivesse escolhido um sub-enredo para manter cativa a atenção dos seus leitores. Acabei por achar os acontecimentos um pouco estáticos e apesar de existir uma evolução racional dentro da história, não foi nada que me arrebatasse, nem que me entusiasmasse. Entre os pensamentos de R, das memórias de Perry e da relação que se estabelece entre Julie e R, pouco mais há para explorar neste mundo dos zombies. Sei que o livro é muito pouco extenso e por isso não se pode pedir muita exploração, mas acabei o livro com uma sensação agridoce, mais para o agri do que para o doce, se é que me entendem. O saldo final é positivo, embora ache que o autor poderia ter explorado melhor este mundo. Mas com certeza o autor estará a pensar explorar mais este mundo na continuação, porque o final é claramente aberto e traz mil e uma possibilidades.Dito isto, acabei por encontrar um livro diferente, fora da minha área de conforto e apesar de não ter ficado sem palavras, acho que também não me dei nada mal. O autor tem muitos pontos positivos e muitas vantagens neste mundo da escrita, especialmente no que toca à maneira como conseguiu fazer-me reflectir sobre a condição humana e sobre o ciclo natural das coisas.O meu conselho final: Read outside the box!