Christopher Hitchens, conhecido autor e jornalista, relata neste seu livro de memórias, a sua batalha contra o cancro. Mas este não é o típico livro de memórias. É certamente mais que isso. É um livro que traz à luz reflexões sobre o que é estar naquele espaço de tempo que não é propriamente vida, mas que também não é morte. É aquele interlúdio em que ainda temos esperança de vencer a morte, mas sabemos que não estaremos vivos por muito tempo. Christopher Hitchens, ao contar a sua experiência contra o cancro do esófago fala-nos não só de como é errado temer a morte, mas como é igualmente errado não lutar pela vida. Também nos fala sobre religião, numa altura em que seria esperado, quase, que este ateísta reconhecido, se virasse agora para a religião como forma de consolo e de abrigo. E acima de tudo, Christopher relata com uma honestidade brutal, que a morte anda de mãos dadas com a vida. Há livros que nos aparecem ao longo da vida e que tornam nossos companheiros para sempre. Não sabemos bem como é que eles se cruzam no nosso caminho, nem porquê, mas sabemos que de alguma forma, foram perfeitos para a altura em que entraram na nossa vida. Foi o que me aconteceu com este Mortalidade de Christopher Hitchens. Já tinha ouvido falar no autor, mas na verdade, não sabia que ele tinha lutado contra o cancro e quando este livro me veio parar às mãos, não poderia saber o quanto ele poderia vir a significar para mim. E acabei por ser surpreendida. Muito, aliás. Este é daqueles exemplos fantásticos que nos mostram que os livros não se medem pelas páginas que têm. E em pouco mais de 100 páginas este livro conseguiu abalar o meu mundo de forma indescritível. Se me pedirem para descrever este livro, não o vou conseguir fazer. Mas uma coisa é certa, é daqueles pequenos tesouros que são impossíveis esquecer. E que valem a pena reler. O conceito de morte é um que consegue ser real e intangível ao mesmo tempo. A resposta parece óbvia. Todos nós sabemos o que ela é, todos nós sabemos o que esta implica. Mas não conseguimos realmente compreendê-la a não ser que já tenhamos passado por isso. E enfim, se realmente passámos por esta experiência, não estaremos por cá para contar a outrem como é que ela é. Por isso mesmo, o conceito de morte e o estado mortal é algo que nos define a todos nós por natureza. Desde sempre que tentamos lutar contra o nosso estatuto mortal e desde sempre que tentamos tirar algum sentido da palavra morte. Até hoje, aquilo que conseguimos fazer foi estender o período de vida e evitar a morte o máximo possível. Mas, façamos o que fizermos, ao fim da estrada, quem nos cumprimenta é a Morte. Não há volta a dar, diga a ciência o que disser. E o mais assustador de tudo é que este é um processo que não podemos controlar. Pelo menos não completamente. Todos os dias lidamos com morte e não há de facto nenhum critério de selecção. Aqueles que ficam lidam com as suas consequências e com o tempo, vamos aprendendo a lidar com os efeitos secundários que ela nos traz.Mas pior do que lidar com a morte... como é que podemos lidar com o período de tempo que está no meio? Aquele em que sabemos que o nosso corpo está prestes a desistir mas o intelecto não? Aquele em que lutamos por ficar cá, mas que sabemos lá no fundo que o tempo se está a esgotar?Este interlúdio parece por vezes pior que a própria morte, ao ponto de desejarmos realmente a morte. É um interlúdio dolorosamente real. Os melhores amigos são os médicos, as enfermeiras e os hospitais. A dor torna-se o nosso companheiro de cama. E contudo, queremos lutar pela vida. Porque nos parece óbvio que não queremos deixar este mundo. Mas, o que é mais assustador? Ficar ou ir? Estar sem realmente estar? Sinceramente, não sei.